Praia dos Artistas

Posted on 19/11/2007 por

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por Washington Fagner

A Bahia possui o maior litoral do Brasil. São inúmeras praias, a princípio sem distinção de classe e gênero, mas, com o passar do tempo e crescimento da cidade, elas começaram a se direcionar a um determinado público. Em Salvador, integrantes do movimento hippie, gays, lésbicas e simpatizantes (GLS), punks, dentre outros, começaram a adotar as praias como lugar de reunião, bate-papo e para se fazer boas amizades. A Praia dos Artistas está inserida nesse contexto. Localizada na capital baiana, a praia começou a se destacar pela freqüência de artistas nos anos 70 e atualmente foi adotada pelo público GLS.

Situada em um local privilegiado no bairro da Boca do Rio, a praia também propicia a prática de esportes contando com quadras de futebol, basquetebol, voleibol e tênis. Para as pessoas que gostam de fazer caminhada, correr, patinar e andar de bicicleta a praia conta com uma ciclovia e pista para pedestres. O local também tem barracas de revistas e de água coco em toda sua extensão, para que os freqüentadores possam se refrescar depois de um dia de sol, sem contar com estacionamento para veículos.

Ao chegar à praia, o visitante depara-se com três enormes bandeiras do movimento GLS. Algumas estátuas da cultura africana ornamentam a entrada. As grandes dunas estimulam a curiosidade dos visitantes, pois ali atrás se encontra uma bela praia de ondas grandes que atraem surfistas. Pela posição privilegiada, o público GLS escolheu a Praia dos Artistas como point. Ao todo, a praia engloba quatro barracas: Aruba, República, Bahamas e a Sky Blue, a mais antiga.

Foi nos anos 70 que a praia se consolidou como o local de liberdade do corpo. Porém, o Golpe de 64 dificultou este tipo de expressão de identidade cultural. Segundo o jornalista aposentado do Jornal A Tarde, Álvaro Dias, 78 anos, morador do bairro da Pituba, na época da ditadura só restavam duas possibilidades: buscar essa liberdade na estrutura macro social ou entrar na luta armada. O fenômeno Praia dos Artistas e a sua vocação para unir artistas, integrantes do movimento Hippie e outras tribos, passou a ter seu desenvolvimento acelerado com o aparecimento do movimento da contracultura que a ditadura queria sufocar.

O proprietário da barraca mais antiga da praia é Aloísio de Souza Almeida, 58 anos, mais conhecido como Aloísio Sky. Ele é a pessoa mais lembrada e citada por quem já passou por lá. A sua barraca, a Yellow Sky, foi o motivo do seu apelido. Deitado em uma rede na varanda de sua casa, seu local preferido para relaxar, Aloísio contou como foi o processo de desenvolvimento da Praia nas décadas de 70 e 80.

Aloísio é o primeiro barraqueiro da Praia dos Artistas e se diz parte da história daquela praia. Uma enciclopédia viva sobre o processo de desenvolvimento do ambiente. Está lá há 28 anos. “Era aqui onde todos costumavam se reunir. Dos vizinhos da Rua Orlando Moscozo,  a gente como os irmãos Zizi e José Possi Neto, até estrelas da Rede Globo e muitos outros que vinham curtir o verão de Salvador”, diz Aloísio.

Caboclo de olhos verdes, Aloísio é natural de Conceição do Almeida. Chegou a Salvador em 1973. Da sua terra só trouxe um acessório que se tornaria a sua marca: o chapéu. O indispensável chapéu de abas largas, tipo sombreiro, com um pano amarrado e uma calça branca são a indumentária de Aloísio há uns bons pares de ano.

A sua barraca era de palha e funcionava somente nos finais de semana. Mas foi em 1976 – ano em que começou estourar a fama – quando trocou a tábua por um tipo de lona amarela que a barraca passou a se chamar Yellow Sky. Um buraco na lona que permitia avistar o céu levou um dos antigos clientes, Rowney Scott (na época representante da Radio Pan AM), hoje com 72 anos, a batizar o espaço com o nome Blue Sky Beach House.

“Fui um dos primeiros a chegar por lá. Na verdade fui eu mesmo que coloquei o nome na barraca. Freqüentei essa barraca por um período de mais de 20 anos”, diz seu Rooney, recordando que quase separou da mulher, pois em uma de suas férias ele saía normalmente às 6h da manhã e ficava na barraca até 1h da madrugada.

Para conquistar os clientes, a Yellow Sky apresentava um cardápio variado e exótico, como peixadas e dúzias de lambretas servidas à beira-mar, assim como o caruru servido na palha. Aloísio lembra muito bem dos principais clientes. Sobre as vestimentas dos clientes, ele frisa a maneira absolutamente espontânea como as garotas amarravam seus lenços para dar formas ao biquíni, deixando a parte de cima livre, e da tanga de crochê ou chita estampada que Caetano Veloso costumava usar.

Point GLS
De 1976 até os primeiros anos da década de 80, a barraca de Aloísio viveu a fase alta, como ele diz. Mas os clientes que antes freqüentavam o cenário paradisíaco estavam começando a freqüentar praias mais distantes. Assim outros clientes, mais precisamente o público GLS, começou a freqüentar o ambiente, e descobriram a sua maneira os encantos e a magia que praia proporcionava.

Hoje, a Praia dos Artistas tem quatro barracas, com atendimento diversificado e uma música que varia de MPB à música eletrônica. As sextas, sábados e domingos a praia é agitada com a presença do DJ Johnny, que toca na Barraca República. “É um prazer tocar aos domingos para esse público ainda tão marginalizado e discriminado por uma sociedade hipócrita”.

O publico GLS viu na Praia dos Artistas, mais especialmente na Barraca de Aloísio, a melhor maneira de se sentirem a vontade, já que Salvador conta com poucos ambientes voltados para esse público. Com isso a Praia dos Artistas, que antes era uma praia freqüentada por artistas, por várias tribos culturais distintas, hoje é uma praia essencialmente direcionada aos gays e simpatizantes. “Aqui nós podemos ter a liberdade de expressão, de comportamento que a sociedade tanto nos restringe. Sou gay e quero ter os mesmos direitos que os heteros têm diante dos ambientes públicos”, diz Adriano Carvalho, designer.

(outubro de 2007)

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