Fazendo a diferença

Posted on 28/06/2007 por

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por Milena Quize

Surge o boato de que Maria José da Silva Machado, responsável pela Associação Clube de Mães União da Boca do Rio, agora tomaria conta de várias crianças. A partir daí, todos os dias, mães passaram a levar seus filhos até a porta da casa dos Machado. Seguindo o conselho de seu marido, o jornalista, compositor e poeta Béu Machado, Dona Maria José resolveu transformar a parte de baixo de sua casa, antes utilizada apenas para o recebimento e distribuição dos tickets de leite do governo Sarney, em creche-escola, batizando-a com o mesmo nome da associação. Assim começa a história de luta e persistência de Dona Maria José em prol dos alunos de sua instituição, hoje conhecida como Creche Béu Machado. Como jornalista, Béu Machado fazia seu papel, ajudando sua esposa em sua empreitada. Divulgava em sua coluna no jornal A TARDE as necessidades e feitos da creche. Também se utilizava do prestígio que tinha junto a vários artistas baianos para conseguir ajuda financeira e apoio moral. Mas, em 19 de agosto de 1992, as coisas começaram a ficar ainda mais difíceis. Béu Machado faleceu. Parceira de Dona Maria José desde o início desta caminhada, que já dura quase 21 anos, Roselene Sousa Bastos conta que a instituição “ficou desamparada”, já que havia perdido seu maior incentivador. Depois de um tempo, a ajuda começou a chegar. “A fonoaudióloga Lia Mara fez a campanha ‘Meninos de Béu na Terra Precisam de Ajuda’, muito divulgada nos jornais e na televisão. Foi aí que a creche passou a se chamar Béu Machado e as coisas melhoraram”. Os recursos que serviram para construção da atual sede, localizada na inclinada Rua do Caxundé, foram cedidos pelo governo de Antônio Carlos Magalhães, por meio de outra campanha. Volta e meia, artistas como Durval Lélis e Ivete Sangalo socorrem a creche nas horas de aperto. Daniela Mercury é contribuinte constante.

Com instalações simples, porém muito aconchegantes e higienizadas, das 7h às 17h a creche acolhe 210 crianças, que têm entre 1 e 7 anos de idade. Elas recebem quatro refeições diárias, fazem atividades escolares e recreativas e recebem atendimento médico.

Depois de alfabetizados, os pequenos perdem o direito de freqüentar a Béu Machado. A creche-escola não oferece nenhum tipo de acompanhamento posterior. O destino da educação deles fica a critério de seus pais, em maioria, moradores do bairro da Boca do Rio, que não têm queixas quanto ao trabalho realizado com seus filhos.

Atingindo mais vidas
Paralelamente aos trabalhos realizados com crianças, a Creche Béu Machado sempre buscou desenvolver projetos que visam também adolescentes e idosos. As ações voltadas para adolescentes, como o “Boa Noite Cinderela” – meninas se reuniam para dançar e falar sobre os assuntos que desejassem, algumas vezes assistiam à palestras – e o “Menino Desce Daí” – aulas de capoeira para meninos – chegaram a se concretizar, mas não vingaram, ora pela perda do interesse dos participantes, ora pela falta de dinheiro para prosseguir. Atualmente, senhoras a partir de 65 anos contam com o “Não Chore Não, Vovó”, para se encontrarem quinzenalmente e aprender artesanato. “Uma vez por mês, mais ou menos, ganham cesta básica”, diz Roselene. Já o “Bazar” reúne roupas, utensílios e móveis doados, que são postos à venda para a comunidade, afim de conseguir qualquer ajuda adicional para as despesas.

Quase sem querer
Conseguir falar com Dona Maria José não é fácil. Ela está sempre muito ocupada. Então, a possibilidade surgiu por obra do acaso. Desavisada da realização de uma entrevista naquela hora, ela entrou na secretaria para dar instruções às suas funcionárias. E esse momento foi aproveitado. A dificuldade na captação de recursos é reconhecida pela viúva de Béu Machado como a principal causadora dos seus momentos de desespero, momentos que a fizeram pensar em desistir. “Na hora do nervoso, a gente fala as coisas meio sem pensar, da boca para fora. Mas eu nunca vou abandonar meu trabalho. Eu amo o que faço, amo as minhas crias”.
(maio de 2007)

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