Faca de dois gumes

Posted on 09/06/2007 por

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por Vinícius Andrade

Mulher, futebol, cerveja e praia. Pergunte ao brasileiro “comum” o que ele mais gosta e é essa a resposta que vai ouvir, não necessariamente nessa ordem. Unindo duas dessas ditas “paixões nacionais”, o futebol de praia faz a alegria de muita gente pelo litoral soteropolitano. Ele concilia agradavelmente sol e proximidade do mar ao prazer do esporte mais praticado no país. William Costa de Souza não foge a esse panorama, sendo um dos adeptos do chamado “baba” na areia. No vigor físico de seus 22 anos, o garçom de barraca de praia, sem o uniforme obrigatório do dia-a-dia, passa desapercebido, escondendo uma tagarelice carismática e um talento formidável no futebol. O “baba” de praia ficou famoso por ter virado o hobby de muitos ex-jogadores de futebol de campo e depois tomou ares de seriedade; criou-se a categoria profissional, à qual ex-atletas da seleção brasileira Zico e Júnior já fizeram parte, e até Copa do Mundo, como nos gramados, já foi realizada. Das praias de Salvador já saíram alguns craques de nome no futebol de areia como Neném e Buru, e esse é o sonho de William: “Talvez eu possa jogar com eles sim; o pessoal daqui me elogia muito e eu acredito em mim mesmo, o que é mais importante. O exemplo dos que já jogam na seleção é o que me dá mais força”.Mas a vida de William não é fácil. Todos os dias, às 5h da manhã, o garoto William já está de pé, e, apressadamente, se arruma para chegar a tempo de ajudar na distribuição das mesas na areia e da montagem completa da barraca. Ele é o caçula de quatro homens e três mulheres, os sete filhos de Dona Rosana Costa e Seu José Maria de Souza. Morador do bairro de Itapuã, o “Rato”, assim chamado pelos amigos pela semelhança apontada sarcasticamente com o animal dos esgotos, costuma dar seus “shows” pelos lados de Jaguaribe, praia que fica entre Piatã e Patamares.

Na verdade, a vida do jovem talento nunca foi fácil. Desde de criança ajudava a mãe nos serviços dela como emprega doméstica. Depois, aos nove anos, teve que suportar brigas e mais brigas entre os pais e alguns irmãos, que mais tarde iriam abandonar a família. Ia ao colégio quando possível e gostava muito de jogar bola na praia. Foi crescendo e tendo que ajudar novamente com a renda da família, fazendo bicos aqui e acolá, e os estudos ficavam cada vez mais distantes. Aos 18 anos sofreu um acidente: o carro em que estava bateu ao sair de um show no cabula com os amigos. A recuperação do braço fraturado foi lenta e acompanhada de perto pela mãe atenciosa. Já pronto para outra, William conseguiu emprego numa barraca de praia, relativamente perto de casa, o seu atual emprego.

Como generoso que é para as pessoas que trabalham duro, o destino guardou as alegrias de William para momentos em que joga futebol, uma diversão simples e acessível para o garoto. William é pouco modesto quando fala de seu talento: ”Jogar assim só Ronaldinho Gaúcho e Robinho e eu. Ele não perde a alegria de viver, está sempre com um sorriso largo no rosto ao trabalhar e é o mais querido do seu baba em Jaguaribe.

Pelo andar da carruagem, William vai ser, pelo menos temporariamente, impedido de ir jogar seu futebol sagrado, porque a situação financeira de sua família anda complicada. Seu pai, desempregado, sofre de depressão, e poucos irmãos ainda mantêm os laços familiares, podendo assim contribuir com a quitação das despesas da casa. A mãe ainda trabalha como empregada doméstica, mas o seu salário, somado ao de William e ao de alguns irmãos ainda comprometidos com a estabilidade econômica da família, não tem sido suficiente, já que são muitas bocas para alimentar e as contas urgem pelo pagamento.

Sobre o problema, o jovem craque das areias é otimista: “A gente consegue mudar isso. Eu faço uns bicos nesse mês e no outro e acho que fica tudo certo. A coisa aperta, mas eu aprendi com meu pai a ser honesto e trabalhador e se for preciso sacrificar o futebol pra sustentar a casa, eu faço”. Dona Rosana fala com orgulho de seu filho: “O William nunca deu problema pra gente, sempre foi um menino bom. Eu agradeço a Deus que ele não seguiu o caminho de alguns filhos meus, das drogas e dessas coisas ruins”.
(junho de 2007)

 

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