Cristo redentor baiano

Posted on 09/06/2007 por

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por Lízia Sena

Desconhecido por muitos, apreciado por poucos. Alguns nem sabem que existe. Os que passam de carro, ônibus ou até mesmo andando desprezam um dos locais mais belos da cidade. Vários já viram, e, talvez tenham até contemplado a estátua de um homem jovem a céu aberto reparando as modificações da cidade, mas poucos se aproximam. Quem chegar mais de perto poderá observar um olhar de satisfação pela construção da natureza, sua criação. Não estou falando do Cristo do Rio de Janeiro e sim o de Salvador, o cristo da Barra. Um jovem de branco em pé com o braço direito estendido e o esquerdo para baixo tocando suas vestes. Em sinal de pregação, parece alertar a população. Representando para muitos a paz, evangelho, amor, benção e defesa invencível, guarda a cidade ao lado do forte da Barra com instrumentos de guerra não mais utilizados. Antes vindos por mar, os inimigos se deparavam com o forte. Agora, transportados de avião, carro ou a pé, surgem de todos os lugares para roubar, matar e sumir. Que o Cristo nos guarde, porque o forte já não tem mais condição de proteger a cidade da violência vinda de todas as direções.

O morro do Cristo é visitado por pessoas de todas as idades, mas principalmente por jovens pensativos e apaixonados, em momentos de tristeza profunda, alegria exacerbada ou extrema confusão: “Sempre venho aqui quando estou estressado. Olho para o mar e o estresse vai embora. Daqui dá para ver a Barra toda. Em nenhum outro lugar você tem esta oportunidade de visão”, diz o autônomo Adilson Roberto, 26.

Há também trabalhadores que aproveitam o intervalo do lanche para passar alguns minutos perto da estátua e da paisagem, assim como muitos casais apaixonados: “A natureza nos atrai, a paisagem, o visual e o Cristo ajuda”, afirma o técnico em informática Denílson Nunes, 28, ao levar sua namorada Sueli Freire pela primeira vez ao local. Mas o romance nem sempre é contínuo. Casais como os estudantes Fabiana Sena e Bruno Oliveira geralmente visitam o morro para discutir a relação. No entanto todos com a visão de um local incomparável: “Eu sempre me emociono muito quando venho aqui e sempre trago pessoas para conhecer”, diz Márcia Geanbastiani, 42 anos.

Há também franceses, cariocas, dentre muitos outros turistas que passam para conhecer: “Gostei muito. Nunca fui ao Cristo do Rio de Janeiro, geralmente os cariocas não vão”, diz a estudante carioca Cíntia Loiu ao visitar o Cristo da Barra pela primeira vez. Apesar de receptivo, com os dois braços abertos abençoando a cidade, poucos são os que chegam perto da estátua do RJ, já que a visão desta é de fácil acesso devido a altura do morro de 700m. Para ver o Cristo da Barra e seus detalhes, assim como a paisagem que o rodeia, é necessário chega perto e subir um morro rodeado de grama e coqueiros que fazem sombra onde muitos preferem sentar e sentir o contato com a natureza e suas formigas. A visão é tão bela quanto subindo a ladeira para chegar mais próximo da estátua. Alguns sobem e sentam em frente ao mar não se preocupando com a distância entre o Cristo e a terra, lugar consideravelmente alto. Outros admiram de pé a bela visão. Quem visita o morro para tentar se animar ou refletir sobre a vida, é bem recompensado ao olhar a água do mar furiosa batendo nas pedras e se acalmando ou ao sentir o vento batendo no rosto. Descrever a paisagem a noite é quase inexplicável: “Estou sentado em um dos lugares mais lindos de Salvador, um local tão lindo que se torna em um belo ponto de visão de um romance secreto entre o brilho espetacular da noite com o frio e a sutileza do mar. Que parece ser tão lindo, mas ao mesmo tempo traiçoeiro e destruidor”, diz o estudante Daniel Santos, 17.

Apesar da iluminação imposta ao redor do Cristo, existem ainda muitas reclamações acerca da segurança: “Há segurança é deficitária, principalmente quando se trata a respeito de menores infratores”, afirma o policial civil e jornalista Vilson Marcilho, 59. Há quem diga que melhorou e que a participação dos seguranças tem sido efetiva: “Tem muitos policias aqui. É porque o pessoal vem de noite, ai parece ta pedindo para ser assaltado”, diz o segurança Edmário dos Santos, 33.

No entanto os guias de turismo recomendam: “Como é um monumento turístico, aconselho que as pessoas vão em grupos com os guias. Nos últimos anos a criminalidade tem aumentado, principalmente de menores”, afirma o guia turístico André Costa. Os comerciantes ao redor presenciam sempre algum assalto ou briga: “Assalto é constante, tem todo o dia. As brigas são de pivete, nada muito anormal. Escolhi este ponto porque é perto de casa e porque é um ponto turístico que tem movimento”, diz a vendedora de coco Maria Conceição, 37.

História do Cristo
Há quem se engane ao dizer que o Cristo da barra foi um clone do Rio de Janeiro, sem saber que nosso Cristo é mais antigo. ( Revista Geográfica Universal, agosto de 1920). Tão antigo que junto com a falta de registro das entidades de preservação de monumentos históricos e bibliotecas, a estátua se corroi junto com sua história. Os escultores da história do Cristo como o neto do escultor Pasquale De Chirico, Bartolo Sarnelli, e a guia de turismo, atual pesquisadora de monumentos Celita Nogueira dão a reparação e retoques necessários para que monumentos como este não sejam esquecidos.

Sarnelli coleta informações sobre todas as obras do avô e Nogueira sobre todos os monumentos de Salvador: “Eu sofri pelas bibliotecas, museus e fundações, por causa da carência de informações e inexistência de registros. Eu, como muita gente sabe, estou fazendo um trabalho sobre o Pasquale De Chirico, mais por interesse pessoal do que, digamos, profissional. Consegui reunir um certo volume e catalogar as principais obras deles, boa parte não exposta em via pública, mas ainda estou perseguindo o meu objetivo. Nós éramos muito ligados. Andava muito com ele. Então eu ouvia muita coisa e nesse ouvir coisa de criança que escuta, mas parece que o vento tá levando foi que eu baseei todo o trabalho que eu já fiz a respeito dele”, diz Bartolo Sarnelli,76.

Já a guia de turismo iniciou sua coleta de informações sobre monumentos a partir de uma dúvida: “Eu estava no ônibus quando alguém me perguntou: que monumento é este? Apontando para o largo da Mariquita. Eu não sei, mas lhe prometo que se um dia lhe encontrar eu falo, respondi. Tinha me formado como guia de turismo e a partir disso, tive a idéia de pesquisar sobre os monumentos. Tem dois anos que venho pesquisando. Pesquiso o homenageado, o autor, a simbologia e o material pra não ter problema”, diz Celita Nogueira.

O Cristo da Barra foi esculpido pelo italiano Pasquale de Chirico (Jornal a Tarde: “O passado esculpido por De Chirico” por Mary Weinstein) em Gênova e trazido para a Bahia a pedido do desembargador judeu convertido ao catolicismo José Botelho Benjamin que fez a doação para presentear a cidade, sendo, portanto propriedade da prefeitura municipal de Salvador de acordo com a Fundação Gregório de Matos (EMTURSA).

Lendas que denominavam o doador um cristão autônomo que teria feito uma promessa, cai por terra com o registro do desembargador. A estátua é uma modificação do quadro a óleo que existe no tribunal superior de justiça, feito por Dulce Benjamim Tourinho. O monumento foi trazido pelo navio Cervino e inaugurada em 24 de dezembro de 1920, de forma solene, com discursos do padre Luiz Gonzaga Cabral, orador sacro da época, na gestão do governador da época J.J Ceabra. Feita em mármore de Carrara com a altura de 7m total e 2,80m a figura do Cristo, a estátua esta firme sobre um pedestal de concreto armado, revestido de placas de mármore escuro.

Mas nem sempre o cristo esteve no morro do Ipiranga, Avenida Oceânica, antiga Avenida Getúlio Vargas. A estátua foi primeiramente imposta no Monte de Jesus, morro da atual prefeitura da Aeronáutica, Ondina e só em 1967 foi transferida. (Texto: Pasquale, o Escutor, por Ubaldo Marques Porto Filho). A retirada da estátua do local se deve a uns detonamentos da pedreira na base do morro, que ao explodir as dinamites, encurtava o local, colocando em perigo a segurança do Cristo. Quando houve a modificação foi possível ver a assinatura do autor, que foi fotografado pela Fundação Gregório de Matos.

O escultor
Oriundo de uma família repleta de artistas, Pasquale não demorou muito para descobrir seu dom. Aos poucos foi desenvolvendo, o qual dominou a arte da Bahia durante muito tempo, precisamente na primeira metade do século XX. Monumentos de sua autoria estão espalhados em toda a cidade como a estatua de Castro Alves, Thomé de Souza, Dom Pedro II, dentre muitas outras obras que através de seus traços únicos, ficariam marcadas e lembradas pelos seus seguidores e admiradores.

Pasquale de Chirico nasceu na pequena cidade de Venosa, onde não há muito sobre sua história, devido a um incêndio do cartório onde estava registrado Nasceu em 1873, estudou em Nápoles, esteve em Roma e com 20 anos de idade se estabeleceu em São Paulo, onde permaneceu por 10 anos.

A pedido do engenheiro Teodoro Sampaio veio para a Bahia, para que ajudasse na reconstrução artística da Antiga Faculdade de Medicina, que tinha sido incendiada, a partir de então passou a morar no Rio Vermelho, onde hoje é o restaurante SUKIAKI. Além de escultor, foi professor da escola de belas artes na UFBA, atraindo milhares de seguidores como Ismael de Barros: “Pasquale deixou diversos alunos como Ismael, mas ele não pegou a fase que meu avô pegou. Esta fase morreu com ele. Não que Ismael não fosse capaz. Mas foi porque não surgiu mais encomenda deste tipo”, esclarece Bartolo Sarnelli.

Em seu tempo livre, Pasquale também desenhava, alguns eram vendidos, mas a maioria dado a amigos e guardados em casa: “Artista não visava enriquecer.Vivia da arte, pela arte, para arte. Quando não tinha nada pra fazer ou não tava inspirado pro trabalho. Ficava em casa desenhando amigos, pegava um coitado na rua que tava com chapéu de palha desfiado, levava para casa e desenhava. Ele dava o desenho como fosse uma brincadeira e fazia pequenas estatuetas, mas na realidade ele estava dando o q vemos hoje que é uma obra de arte ”, conta Sarnelli ao apontar para os 6 desenhos emoldurados em sua parede. Devido à falta de costume da época de fazer registros históricos, a história de Pasquale e seus monumentos tem sido restritas: “Dentro de casa também não dava muito importância ao velho. Para família ele era apenas um membro, não se levava em conta a importância dele. O tamanho do artista que ele era, que não era nem tão grande não viu, tinha 1m55”, diz Sarnelli.

Projetos de manutenção dos monumentos
A fundação Gregório de Matos é a atual responsável pela fiscalização e manutenção dos monumentos de Salvador. Existem na cidade 176 obras de arte e de valor histórico, sete chafarizes, sete efígies, 27 esculturas, 23 estátuas, 20 fontes, sete fontes luminosas, 40 bustos, sete hermas, quatro memoriais, 11 monumentos significativos e três oratórios (Fonte: http://www.cultura.salvador.ba.gov.br/sitios-historicos.php)
Dentre os quais muitos estão esquecidos, acabados e corroídos.

O único monumento que tem fiscalização 24h é o de Luis Eduardo Magalhães, mantida por dois seguranças. Projetos como Adote um monumento, conscientização nas escolas são iniciativas da instituição. O Salvador Atende (156) é um disk denúncia que permite as pessoas denunciarem más condições dos monumentos e até roubo. Estatuas como a de Vinicius de Moraes, em Itapuã do artista Juarez Paraíso, foi roubado o óculos na inauguração. Assim como ela, muitos outros monumentos têm sido deixados de lado e junto com eles a história da cidade que representam: “Até hoje não consegui tirar uma fotografia do Thomé de Souza sem que tivesse um pombo na cabeça dele. A estátua de Visconde de Cairú ta toda melada e corroída por causa das fezes de pombo que tem um ácido que corroi o metal. A estátua da figura Vitória, ficou vários anos solta da base, com a cabeça apoiada Visconde de Cairú”, desabafa Sarnelli.
(junho de 2007)

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