Histórias de pescador

Posted on 05/06/2007 por


por Lízia Sena

Simpáticos, sorridentes, criativos e conversadores, os pescadores têm muito o que contar. Profissão antiga, que aos poucos foi se modernizando e para alguns não há mais divertimento no mar. A profissão difícil, ainda mais para quem não se adapta a modernização, transformou alegria em sofrimento. Sujeitos à chuva, sol, ventos fortes, correntezas, dias sem dormir e saudades da terra, nossos capturadores de peixe tentam manter o riso. Nesta minha busca em conhecer mais a profissão, percorri algumas colônias de pescadores e uma extensão. Fiz entrevistas com presidentes, diretores e com os próprios pescadores. As conversas na beira do mar e piadas enquanto jogavam baralho e dominós colaboraram tanto quanto as pesquisas e entrevistas. Dentre as colônias visitadas estão à Colônia do Peso Z1 (Rio Vermelho), A Mariquita união dos pescadores filiada Z1(Rio Vermelho), Colônia de Pescadores COOPY Z6(Itapuã) e a extensão da colônia de Itapuã, que fica em Piatã. Todas diferenciadas em vários aspectos e integrantes cheios de história para contar.

“Quem inventou o náilon merece ser enforcado nele”, brinca o pescador da Colônia Z6, Nilson, sobre a substituição do fio de linha pelo náilon. Apesar de seus benefícios e duração eterna, o náilon queima muito mais a pele do que a linha. Mas o náilon não foi o único instrumento que possibilitou uma pesca moderna. Sondas localizam peixes. Barcos motorizados deram início a pescas mais lucrativas, pela potência que o barco tem de navegar por 8 a 15 dias, muitas vezes. Se antes a comida era esquentada numa fogueira no interior do barco com muito cuidado para não queimar as linhas, hoje fogão e gás facilitam a preparação: “Naquele tempo era fogão de pedra. Tinha que jogar água logo para apagar, porque ia fogo pra tudo que é lado, ainda mais com ventos fortes”, diz Nilson. “Os barcos têm medicamentos, rádio, coletes, bússolas. Não é como antes, a base de remo. Quase todos são motorizados. Não tem mais precisão de sair de madrugada. A rotina é 6h, 7h da manhã. Levantam, pegam seus equipamentos, pegam o barco e vão à luta”, completa o presidente da colônia de Itapuã, Nelsom dos Santos, apelidado de Pai Velho.

Uma outra realidade
Mas nem todos conseguem acompanhar a modernização. Estes acabam lucrando menos, declinando, esperando o milagre da multiplicação dos peixes na beira do mar. Com poucos barcos motorizados – a maioria é à vela – peças deteriorizadas, sem apoio ou dinheiro para reestruturação, a Colônia Z1 se encontra em estado crítico. Com mais de 100 barcos parados, o silêncio e a tranqüilidade do local escondem o sofrimento de uma colônia fantasma. A falta de peixe, o mau tempo, as correntezas fortes e as embarcações inapropriadas são problemas freqüentes enfrentados pelos pescadores da colônia: “Quando chegamos numa posição com condição para pegar o peixe, vem embarcações melhores de outros lugares e levam. O pescador, coitado, fica com o dedo na boca esperando que aconteça o bom tempo para voltar ao mar. A situação é essa”, desabafa o presidente da Colônia Z1, Eulirio Menezes, 80 anos.Também motorista particular, confessa que não é mais possivel viver como pescador. “Eu já tenho 80 anos, eu vou para onde? Vivo da aposentadoria e como motorista, porque aqui não ganho nada”.

Caiu na rede, é lucro?
Depende de como é feita a divisão. Isso difere numa associação, extensão de colônia ou num trabalho por conta própria. Para os não modernizados, o trabalho na busca pelo peixe tem dado é muito prejuízo. Um barco geralmente sai com dois, três pescadores e os gastos com gelo, mantimento, óleo, isca, náilon são relevantes. Além das despesas e a fiscalização de peixeiros, existe o chamado quinto, que é a porcentagem dada ao dono do barco. “Os pescadores saem hoje. Gastam seis sacos de gelo, R$40 de mantimento, mais R$40 com óleo. Volta daqui a três dias com 20kg de peixe. Vende por R$10 para o peixeiro, que vende por R$18. São R$200. R$100 de despesa. Tira o quinto fica R$160,00. R$40, R$60,00 pra cada homem. Não paga nem a noite perdida, dormindo sentado, sujeito a chuva”, diz Eulirio. Para quem tem peixaria junto à colônia, no caso da colônia de Itapuã, a situação é benéfica. Sábado de manhã, pescadores voltando do mar. Ao som de cortes de faca, música baiana e gritos de compradores, as notícias velhas e propagandas políticas eram usadas para enrolar o peixe. Depois da jornada em alto mar, o peixe conseguido é pesado, vendido, despesas pagas e chega a hora de ratear o lucro, ou melhor, a sobra. Diferente da extensão da colônia de Itapuã ou daCcolônia Z1 que precisa vender os poucos peixes conseguidos, sabendo que os peixeiros lucraram mais. Porém conscientes de que estes também têm suas despesas: “Mas é isso mesmo. Porque eles têm prejuízo, tem que comprar gelo, material de limpeza”, diz um dos diretores do núcleo das Mariquitas, José Silva. A divisão nos peixes em Piatã não é das mais amorosas. Brigas, gritos, vozes ecoam na busca pelo peixe. O remador, calandeiro e puxador, a depender da posição hierárquica, obtém uma porcentagem diferente do lucro. A Colônia de Peso apesar de ter a peixaria junto à colônia, aluga o espaço para que a colônia sobreviva: “Vem caindo, levantando… caindo, levantando, mas vem se erguendo”, diz Eulirio.

Caiu na rede, é peixe?
Nem sempre. A poluição das águas tem causado o afastamento e morte de muitos peixes, prejudicando a renda do pescador. A sujeira encontrou seu lugar na rede e indignação é geral “O pessoal que mergulha, puxa a linha, vê a isca toda amarela, rede escorregadia, uma altura enorme só de pó. Peixe nenhum come uma isca desta”, desabafa o pescador da colônia de Itapuã, Nilson, 70 anos. As reclamações são baseadas na fábrica perto da colônia, lixo jogado pelos moradores, mas, principalmente, pelas cinco plataformas da Petrobrás perto do Rio Vermelho, indo para Morro de São Paulo: “Mês passado eu estava passando por aqui e vi duas toneladas de peixes boiando por causa do gás liberado na retirada do petróleo. Mas ninguém diz nada, abafam, isso não sai no jornal, mas a verdade é essa”, diz o presidente da Colônia de Peso no Rio Vermelho, Eulirio Menezes, 80. Sem apoio ou solução… Mais difícil do que achar agulha no palheiro, só resta ao pescador se aventurar. Para quem tem barcos motorizados o jeito é adentrar na imensidão do mar. Para os que não têm ou mudam de profissão, lutam por uma solução. O barco nomeado “Vou e volto com Deus”, encostado na areia da praia do Rio Vermelho vai ficar com Deus por mais tempo, até que o milagre da multiplicação de peixes aconteça. Ou até que a conscientização em relação à poluição, ajuda do governo e a modernização alcancem, de uma vez por todas, as colônias sem exclusão. Milagres acontecem, mas é preciso que o homem faça sua parte.

Festa de Iemanjá
Em 1923, 25 pescadores foram presentear a mãe d´ água devido a escassez dos peixes em busca de melhorias na pesca. A partir de então, todo ano, no dia 2 de fevereiro adeptos do candomblé, turistas e pescadores passaram a reverenciar Iemanjá com flores, jóias, batons, perfumes, tudo que uma mulher vaidosa deseja. A festa acontece no Rio Vermelho, tanto na terra quanto no mar, com músicas baianas e fogos de artifício animando e engarrafando as vias estreitas.

O pescador e seus amores
Deixar a família, filhos, esposas na terra e navegar livres de paredes, presos apenas pelo mar que os rodeia parece ser uma vida solitária. Mas a volta sempre compensa, ainda mais sabendo que existem mais de uma mulher esperando. O pescador não se conforma com um amor, se entrega à várias paixões e acaba colocando a culpa no peixe, que não tem voz para se defender: “Uma mulher queria porque queria peixe. Eu disse que não podia dar, depois dou outra coisa. Com uma mulher eu tenho 12 filhos, em Pernambuco 2, ao total são 28. Mas no meu tempo é menos, meu pai tinha 3 mulheres”, conta um pescador. Seu amigo aproveita a situação para fazer uma piada: “É por isso que morreu cedo, não agüentou. A mulher foi pedi peixe, voltou com 12 filhos. Nunca peça peixe a pescador”, me aconselha.

Filhinho de peixe, gafanhoto é
De geração em geração, filhos de pescadores têm seguido o mesmo caminho. Quando não se tornavam pescadores, seguiam o rumo de peixeiro, mas sempre permanecendo na mesma linha de espécies aquáticas. Mas a história tomou outro rumo. A profissão difícil, ainda mais para quem não se moderniza, tem causado dor e sofrimento: “Já tem 10 anos que não tem um filho de pescador que queira ser o que o pai é. Porque eles enxergam o sofrimento. Ou vão procurar outra vida ou não fazem nada. Porque sabem que se vier para aqui vai ser pior”, diz Eulirio Menezes.

História de pescador
“Eu vou te contar uma que você não vai acreditar”, assim começam todos os pescadores antes de contar algo que só eles acreditam. Como o ditado diz, é tudo história de pescador. Verdade ou não, foi divertido escutar todas elas. “Meu cachorro vinha trazer comida para mim na beira do mar. Eu amarrava um prato na cabeça dele e ele trazia. Acredite se quiser”, diz o pescador Paulo Roberto, 30 anos “Eu já estava sem isca alguma, quando peguei o peixe boi de mais de 22 kg”, conta outro. As histórias seguem recheadas de criatividade.

As colônias e extensões
Colônia Z1(Rio Vermelho) – A primeira organização da colônia foi fundada em 1923. Reconstruída em 1972 pela prefeitura municipal. Tem em média 300 pescadores. Uns já mortos, outros procurando outra profissão. Colônia em estado critico, com barcos parados, sem modernização, sem dinheiro para estruturar. O presidente Eulirio Menezes, 80 anos, confessa que só ganhou cabelo branco: “Estou aqui para dar apoio e me distrair. Não é possível mais viver de pescaria hoje em dia”.Mariquita união dos pescadores filiada Z1 (Rio Vermelho) – O núcleo foi fundado por seis amigos. “Quando desmancharam o mercado velho, não tinha como guardar o aviamento, tínhamos que guardar em casa. Apareceu um amigo nosso, hoje falecido com as piaçabas e madeiras. Compramos a madeira na mão dele e ele deu as piaçabas e fundamos a associação”, diz um dos diretores do núcleo, José Silva. No dia 28 de janeiro a colônia faz 20 anos. Sem fins lucrativos, ou ajuda da prefeitura “vão tocando a vida”, construindo e reformando seus próprios materiais. Tem barcos a vela, alguns motorizados e pretendem construir três peixarias no local, para ter mais lucro.

Colônia de pescadores COOPY Z6 (Itapuã) – Colônia com mais de dois séculos e muita história pra contar. “Depois dos índios, nós, pescadores, fomos os primeiros a pisar nesta terra”, diz o presidente da colônia, Pai Velho. Uma associação com cerca de 3800 integrantes, mas apenas 780 pescadores profissionais. Os outros são contribuintes e amadores. Barcos motorizados, pescaria conjunta e financiamento do governo. “Deus nos deu esta casinha, antes era de palha, agora está bem melhor”, diz o pescador Paulo Roberto, 30 anos.

Extensão da colônia de Itapuã – Canoas, pesca rápida. A maioria é pesca para o próprio consumo. O peixe conseguido é vendido ao peixeiro, depois rateado entre puxadores, remadores, calangueiros e donos do barcos.
(maio de 2007)

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