Por trás das brasas do queijinho

Posted on 29/05/2007 por

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por Juliana Laxon

Não há baiano que nunca tenha ouvido, ao passar pela orla de Salvador, a frase “Olha o queijinho! Assadinho na hora!”. O grito de venda pertence aos comerciantes de queijo coalho espalhados não só pelo vasto litoral da cidade, mas também pelas ladeiras do Pelourinho, ruas boêmias do Rio Vermelho, da Barra e de outros bairros, por shows e micaretas que acontecem em Salvador. Os inúmeros vendedores de queijo transitam pelo litoral soteropolitano, oferecendo aos baianos e turistas que freqüentam as praias a conveniência de um alimento saudável. “Há uma grande variedade de alimentos gordurosos na praia, e o queijinho é a melhor opção para combater aquela fomezinha, pois é nutritivo e possui gordura suficiente”, diz a nutricionista Amélia Rodrigues.

“O queijo nas praias de Salvador é como o biscoito Globo e o Mate Leão na orla do Rio”, compara o vendedor Luiz Alberto Silva, na praia do Porto da Barra. Luiz, mais conhecido por “fotógrafo”, pois trabalha com fotografia nas horas em que não está na praia fazendo sua parte pela saúde dos “praieiros”, vende queijos das terças-feiras aos domingos das 10h às 17h.

Para executar seu trabalho, Luiz utiliza uma lata de metal com carvão em brasa para aquecer o queijo, que custa R$1, até o ponto em que este fica derretido no palito, e usa uma tábua de madeira como descanso para a vasilha de plástico em que armazena 250 queijinhos no palito, dos quais, no final da tarde, sobram 150, durante a maior parte do ano. Seu lucro diário é de R$10, o que num mês equivale, aproximadamente, a um salário mínimo.

O queijo no palito pode ser servido com melaço, orégano ou puro. Para que este fique saboroso é necessário que o vendedor tenha “a mão boa”, afinal tem que saber prepará-lo. O queijo tem de ficar derretido até certo ponto, nem menos, porque senão este fica borrachudo, e nem demais, pois assim cai do palito.

Os queijeiros de plantão gostam de saboreá-lo acompanhado pela velha e boa Coca-cola bem gelada. Já outros preferem seguir a linha natural do queijo e acompanhá-lo com uma saudável água de coco.

No verão, quando os soteropolitanos lotam as praias de Salvador, o queijo coalho é o tira-gosto mais pedido. Um vendedor de queijo como Luiz Alberto atinge a venda de 250 queijinhos, quantidade que enche a sua vasilha. “No verão as vendas dobram”, afirma o vendedor de queijo Rudival Ribeiro, da praia do Farol da Barra.

Enquanto nas outras estações do ano ele vende, em média, 80 queijos por dia, no verão chega a atingir a cota de 200. Desde o último verão, a prefeitura estabeleceu um uniforme amarelo fluorescente para os ambulantes da orla da cidade, que serve para reconhecer os comerciantes de praia, seja qual for o produto alimentício comercializado. A medida foi tomada para evitar os inúmeros assaltos que estavam ocorrendo principalmente na orla da Barra.

A vestimenta padrão não custa nada para o trabalhador. Basta que este se dirija à prefeitura e assine um documento que prova que, em troca da farda, o indivíduo trabalhará com segurança na praia. Assim preservam-se as praias e diminuem os roubos no local, que prejudicam a economia praieira.

Quando a praia está vazia, rendendo poucas vendas, o comerciante já procura outro local em potencial, como as ruas. “Quando o dia está nublado e vejo que a praia não vai ter um fluxo de consumidores lucrativo, volto a pé para casa e vendo queijos ao longo do caminho”, argumenta o ambulante Rudival Ribeiro, que vende queijo no Farol da Barra e mora no bairro de Itapagipe.

Chuvas
No inverno, quando as chuvas dominam Salvador, e a época de festas de forró chega no interior do estado, é para lá que correm alguns vendedores de queijo da capital. “No inverno toda a galera jovem que no verão freqüenta as praias soteropolitanas viaja para Amargosa para curtir as festas, e lá a concorrência é bem menor”, diz Luiz Alberto.

Todo esse mercado de queijo coalho na cidade só se torna possível porque existem os fornecedores, através dos quais os vendedores compram a matéria-prima e as ferramentas necessárias, como a luva e a faca para manusear os queijos. “O meu negócio deu e ainda dá muito certo até hoje, mas reconheço que a venda de queijo coalho já é uma área de mercado saturada”, alega o fornecedor de queijos Otávio Ferreira.

A Laticínios São Vicente se localiza no Mercado do Ogunjá. É para lá que muitos vendedores de queijo vão todas as manhãs adquirir queijo coalho fresco. O fornecedor relata também: “Nunca tive problemas por fornecer queijo, nunca aconteceu de um cliente passar mal, nem nada do tipo, porque o queijo é devidamente conservado e refrigerado, além de ser um alimento super saudável”.

A economia movimentada pela venda de queijo coalho tira muitos indivíduos do desemprego e os torna trabalhadores dignos. A cidade de Salvador, por ser provida de uma extensa costa, possibilitou o comércio de queijos, que se tornou uma marca registrada do litoral soteropolitano. O queijinho na brasa é famoso pelo Brasil por causa dos turistas que visitam Salvador e o experimentam. Logo, o queijo de praia se torna inesquecível e comentado nas diversas cidades do país.
(maio de 2007)

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Posted in: ECONOMIA