Patrimônio nacional

Posted on 29/05/2007 por


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Venda de acarajé movimenta economia baiana
por Jamile Oliveira

Seduzidos pelas ondas do mar e pelo cheiro inconfundível do azeite de dendê, as pessoas vão chegando à orla com seus familiares. São crianças, adolescentes e adultos em plena manhã de sábado curtindo a praia de Itapoã e seus atrativos mais conhecidos. Mas que escrava, no Brasil colonial, poderia imaginar que séculos depois seus quitutes seriam parte enriquecedora da economia de um Estado? A comercialização do acarajé tem uma marca significativa quando se fala em geração de emprego em Salvador. Com feijão fradinho, cebola, sal e azeite de dendê é feito o principal produto da culinária baiana: o acarajé, conta Luis da Câmara Cascudo no seu livro História da Alimentação do Brasil. Quando Itapoã ainda não era muito freqüentado, ela apareceu com seu tabuleiro. Com seu jeito tímido, mas cheio de personalidade, ela foi conquistando seu espaço. Esta é Jaciara de Jesus Santos, 53 anos, popularmente chamada de Cira do Acarajé. Hoje com quase 40 anos de história, é uma das baianas mais conhecidas de Salvador: “Minha mãe foi um exemplo a ser seguido. Eu sempre acreditei que poderia dar certo e trabalho seguindo para isso”.

História
Mas que escrava, no Brasil colonial, poderia imaginar que séculos depois seus quitutes seriam parte enriquecedora na economia de um Estado? Com feijão fradinho, cebola, sal e azeite de dendê é feito o principal produto da culinária baiana: o acarajé. Palavra composta da língua iorubá: “acará” (bola de fogo) e “jé” (comer), ou seja, “comer bola de fogo”, o acarajé é uns bolinhos característicos do candomblé, que pode ser explicado por um mito sobre a relação de Xangô com suas esposas, Oxum e Iansã. O bolinho tornou-se uma oferenda a esses orixás sendo considerado até hoje como um alimento sagrado.

Como o principal atrativo no tabuleiro, a sua comercialização teve início ainda no período da escravidão. As chamadas escravas de ganho que trabalhavam nas ruas, para as suas senhoras, desempenhavam atividades variadas, dentre elas, a venda de quitutes nos seus tabuleiros. O comércio de rua permitiu às mulheres escravas ir além da prestação de serviços aos seus senhores: elas garantiam, muitas vezes, a sobrevivência dos seus familiares. Foram importantes também para a criação das irmandades religiosas e do candomblé. Muitas filhas-de-santo, por exemplo, começaram a vender acarajé para poder cumprir com suas obrigações religiosas que precisavam ser renovadas periodicamente. A venda do acarajé permanece até hoje como uma atividade econômica relevante para muitas mulheres.

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Geração de emprego
A comercialização do acarajé tem uma marca significativa quando fala-se em geração de emprego. Segundo a vice-presidente da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau do Estado da Bahia, Rita Santos, 54 anos, cada baiana dá emprego a mais de 10 pessoas. Hoje, atrás das baianas existem famílias inteiras dependendo dos seus tabuleiros: 70% das mulheres pertencentes à associação são chefes de família. Na compra dos ingredientes, na produção, atendimento. Existem muitos empregos indiretos. Ela gira essa economia, principalmente em Salvador. Na feira de São Joaquim, por exemplo, existem muitas pessoas que vivem em função da baiana, são mais de 30. Se elas resolvessem parar de trabalhar, seriam mais de 10 mil pessoas desempregadas.

Hoje as baianas são consideradas bem melhores do que as de 20 e 30 anos atrás. “Antigamente achava-se que as pessoas só eram baianas por que não sabiam fazer nada e hoje em dia essa concepção mudou e muito. Nós temos nutricionistas, advogadas, enfermeiras que já estão trabalhando como baiana.. Ela esta sendo vista como uma empreendedora de fato”, comenta Rita.

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Sonho realizado
Segunda e quinta-feira são os dias que Ana Paula Almeida, 27 anos, tira folga do trabalho. Faz 8 anos que ela trabalha para Cira. “Ajudo a fazer a massa em casa, enrolo o abará, faço a salada e depois venho pro ponto”, relata Ana Paula. Mas antes de se dedicar à fabricação e venda do bolinho junto com sua patroa, ela já trabalhou vendendo doce na praia, picolé, mas não deu certo.

De família humilde, Ana Paula viu seu destino mudar quando conheceu Cira através de uma outra baiana de acarajé. “Dona Cira estava precisando de alguém de confiança pra lidar na cozinha e eu acabei ficando”, conta. No local de trabalho, caracterizada de baiana, ela encanta atende os clientes de maneira ágil e atenta. Com o emprego garantido, a aprendiz de baiana diz ter conseguido realizar através dessa oportunidade o seu sonho maior: a aquisição da casa própria.

Assim como ela, estão os demais profissionais que trabalham para a sua patroa, no seu outro ponto, localizado no Rio Vermelho, que totalizam 30 pessoas. Quem ganha com isso também são os fornecedores lá na feira do São Joaquim.

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Fidelidade conquistada

No final da tarde, o local começa a ser montado. As mesas e cadeiras são arrumadas em sintonia. Os funcionários conversam, fazem brincadeiras entre si e logo perguntam pela anfitriã. É assim que começa mais um dia de trabalho no tabuleiro da Jandira, na rua Borborema, na Ribeira. Quando chega, sorridente, ocupa seu local atrás do tabuleiro e a partir daí inicia seu trabalho ate ás 10h da noite. “Segui os passos da minha mãe e hoje sou muito feliz na minha escolha”, disse a baiana de acarajé Jandira Amaral, 52 anos.

Utilizando um carro-de-mão para transportar os ingredientes, sua mãe vinha para o ponto trabalhar todos os dias para comercializar aquilo que lhe dava a garantia de sobrevivência. O ponto era um local sem muitas acomodações, de certo modo, humilde se comparado aos outros tabuleiros. Aos poucos foi conquistando o gosto da comunidade e de admiradores de outros bairros. Como Jonathas Menezes, 26 anos, que visita freqüentemente o seu tabuleiro e não troca por outro de maneira nenhuma. “Já morei por aqui durante a minha adolescência e atualmente estou em Stella Maris, mas isso não impede que eu venha relembrar dos tempos antigos onde eu e meu amigos sentávamos aqui para conversar e provar do acarajé dela, que pra mim não tem mais gostoso”, diz o rapaz, cheio de graça.

Hoje a situação encontra-se transformada. Com 30 anos de profissão, Jandira se diz feliz e realizada. “Não sou rica, como outras baianas de acarajé, mas vivo feliz ao lado da minha família e tenho meus clientes que vem de longe para saborear o meu acarajé”, comenta.

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Águas passadas

“A minha história como baiana já acabou há muito tempo, só que eu não aceitei ainda”, essa é uma frase seguida de uma olhar triste e cheio de saudade. Jucilene da Silva, 57 anos, observa seus dois filhos armarem a barraca cedida por um antigo admirador da sua culinária. Os ferros que compõem a armação já são bem antigos, quase inutilizável. Devagar, acompanhando a ida do sol, eles vão montando aquilo que já não dá tanto lucro como antes.

São 37 anos de carreira. Dona Jucilene já viveu muitos momentos prazerosos com a venda do seu acarajé. Há 20 anos atrás, ela tinha o seu público fiel. Quando relembra os momentos de glória em que viveu, surge um clima de saudade e este toma conta do ambiente. “Foi a época mais prazerosa da minha vida. A barraca ficava rodeada de pessoas”, afirma a senhora, com os olhos cheio de lágrimas.

As coisas não estão sendo fáceis para ela, que já viveu momentos de grandes lucros. Ao atravessar o Largo das Baianas em Amaralina, indo para a rua Manoel Dias da Silva, era possível presenciar o sucesso de vendas dela. Atualmente é muito difícil vender acarajé em grandes quantidades. Tem dias na semana que ela fica sem vender absolutamente nada. “Só estou aqui ainda por que não tenho o que fazer em casa”, justifica.

O começo da sua carreira foi bem diferente das outras baianas. Na sua família, por exemplo, não havia ninguém que vivesse do acarajé. Ela aprendeu a faze-lo ainda muito jovem. Enquanto sua vizinha fazia os quitutes, ela, curiosa, olhava de maneira discreta atrás da porta, com o objetivo de aprender.

Suas vendas começaram a cair quando a concorrência começou a investir em infra-estrutura, coisa que estava longe das suas possibilidades. O preço dos ingredientes subiu, começaram a ser utilizado outras formas de pagamento e ela não se aperfeiçoou nessa questão. Para defendê-la surge sua fiel amiga. Dona de um bar em Amaralina, Rita Souza, 31 anos, saboreia o acarajé de sua amiga desde pequena. Ela conta que acompanhou todas as fases dela e com tudo o que aconteceu, o seu acarajé continua sendo o melhor. Por volta das 9h da noite, ela junto com seus filhos, desarrumam as coisas e assim terminam mais um dia normal, sem grandes surpresas.

(maio de 2007)

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Acará

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