Luz para todos

Posted on 29/05/2007 por

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por Caio Barbosa

O relógio marcava pontualmente 17h32. O céu azul começava a ganhar tonalidades diferentes, meio alaranjadas talvez. O pôr-do-sol estava por vir. O sol começava a perder seu espaço para a lua, que aparecia timidamente ao fundo do Farol da Barra. 17h44. A noite já ganhava força e com ela a Avenida Oceânica ia recebendo mais luz. A cada minuto um, dos 69 postes que iluminavam desde o Porto da Barra ao Cristo, ia se acendendo, dando mais vida a toda aquela paisagem. As horas iam passando, e o movimento de carros, pessoas que praticavam cooper ou caminhada, idosos e crianças só fazia aumentar. Às 18h, a estreita calçada da orla ficava menor ainda com a grande quantidade de pessoas que tinham aquele horário como sagrado para sentir um pouco da brisa do mar ou se exercitar. Há 10 anos, essa realidade era diferente. Na completa escuridão, as pessoas que se arriscavam a freqüentar o Porto da Barra, a Avenida Oceânica e o Cristo até o início de Ondina depois do anoitecer, sentiam-se inseguras e não contavam com todo o visual proporcionado pela “nova” configuração da orla. “Lembro como se fosse hoje.Só vinha andar mesmo porque meu médico tinha me obrigado a exercitar, e como eu não gostava de academia, a orla era minha única opção. Morria de medo. Era tudo muito escuro. A maioria dos bares não ficava até muito tarde. Depois do segundo assalto, tive que mudar meu horário de caminhada”, relatou frustrada a aposentada Iraci Magalhães de 78 anos.

De 1997 a 1998, no mandato do então prefeito Antônio Imbassahy, o trecho do Porto da Barra até o início de Ondina ganhou essa iluminação especial, em homenagem ao aniversário da cidade – vale ressaltar que a inauguração dessa iluminação se deu no dia do aniversário de Salvador. “Do Porto ao Cristo são 69 postes, mais oito refletores de 1000 volts voltados para a praia. Além disso, cada refletor possui uma luminária de 400 volts que ilumina a via pública. Ao redor do Cristo, 45 postes iluminam exclusivamente àquela região”, explicou o coordenador de iluminação pública, Raimundo Silva.

Noite no Porto
Do alto do forte São Diogo, localizado a poucos metros da praia, se tem uma vista panorâmica da baía e do Porto da Barra. Um mar com águas calmas. Meia dúzia de barquinhos atracados ilustram a paisagem dessa, que foi a praia que serviu de palco para a fundação da cidade – afinal de contas, os livros de história não negam que Tomé de Souza em 1549, desembarcou aqui com sua tripulação e fundou a cidade do Salvador. Enquanto há sol, as atividades praieiras se seguem na normalidade. Banho de mar, peteca, vôlei de praia, natação, entre outras práticas rotineiras em uma praia. Se engana quem pensa que quando o sol desaparece no horizonte, a praia fica deserta. Em plena segunda-feira, às 18h41 era fácil identificar os adoradores de uma praia à luz da lua. Pessoas tocando violão, jogando dominó, futebol, nadando, fazendo cooper na areia, ou simplesmente sentadas, deslumbrando a lua cheia que reinava absoluta e refletia todo o seu clarão nas águas límpidas e iluminadas do Porto da Barra. Depois da iluminação, essas práticas que só eram viáveis com uma ajudinha do astro rei, tornaram-se cotidianas, possibilitando que baianos e turistas pudessem prolongar sua estadia no Porto.

Assim como a praia, todo o comércio que circunda a região tirou – e tira até hoje – proveito dessa luminosidade que se tornou fundamental para a vida dos freqüentadores daquele local. Ao chegar à praia, antes mesmo de descer as escadas – para quem não conhece o Porto, uma escadaria em estilo colonial leva o banhista da rua às areias – uma barraca de coco chama atenção. Primeiro pela sua decoração com azulejos brilhantes e coloridos e depois, por ser a barraca de coco mais antiga do Porto da Barra. Há 23 anos naquele mesmo local, o proprietário Marco Pólo, assim conhecido por todos, fala com orgulho do seu comércio e sente-se favorecido com a iluminação. “Essa iluminação ajudou muito a Barra. Posso dizer que ela revitalizou o bairro”. Ao ser perguntado sobre o seu faturamento antes e depois da iluminação, Pólo afirma com bom humor: “Modéstia parte, meu movimento sempre foi bom, mas depois da iluminação é claro que ele melhorou e muito. Antes eu fechava às 19h e hoje em dia fecho às 22h, 23h e se o movimento tiver bom, fico até meia noite”. Nascido e criado na Barra, como ele mesmo diz, o vendedor de coco com seus 53 anos não tem vontade de parar com esse comércio e se emociona ao falar que é seu desejo que aquilo seja passado de geração em geração.

Atletas de plantão
Os aproximados 3,5km que separam o Porto da Barra da Ondina se transformam em verdadeiras pistas de cooper daqueles que prezam por uma atividade física ao ar livre. Nada melhor do que andar, correr, pedalar, jogar peteca ou futebol ouvindo o barulho do mar e sentindo um vento fresco batendo no corpo. Com a instalação dos postes na orla em 97/98, essas atividades se tornaram ainda mais prazerosas de serem praticadas. O estudante de Relações Internacionais Thiago Cestari, tem o costume de fazer cooper do Porto a Ondina todos os dias. Para ele, o horário mais agradável para a prática dessa atividade é entre ás 17h:30 e 19h. “Se a orla não fosse iluminada com certeza não viria correr nesse horário por dois motivos. Primeiro, o risco de me acidentar fazendo cooper no escuro é muito maior, afinal de contas os obstáculos são disfarçados na escuridão. Segundo, por um motivo de força maior que é a segurança” , comentou Cestari apressado para continuar sua corrida.

A Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Entretenimento, SMEL, criou um painel que organiza através de horários a prática de esportes na praia do Porto da Barra. De acordo com a SMEL, o vôlei e o futevôlei são liberados todos os dias da semana pela manhã e pela tarde, com exceção dos sábados e domingos que é permitido das 17h ás 22h. Além desses, a peteca, o futebol de areia e o frescobol são liberados de segunda a domingo no mesmo horário – 17h às 22h. Segundo Rodrigo Corrêa, 32 anos, administrador e jogador de futevôlei na praia do Porto desde os 23, os freqüentadores e praticantes de esportes na praia respeitam àquela grade de horários criada pela secretaria. “Essa é uma forma nova e eficaz de solucionar problemas em relação aos horários dessas atividades esportivas. Todo mundo que joga desde peteca ao futebol respeita os prazos pré-estabelecidos, fazendo com que se evite qualquer tipo de confusão, como já aconteceu aqui”, relatou.

Vida noturna x Violência
É normal em toda capital brasileira com grande número de habitantes que a violência seja uma das muitas dores de cabeça das autoridades. Ainda mais tratando-se de Salvador que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, tem uma população estimada em aproximadamente 3 milhões de habitantes, sendo cerca de oito por metro quadrado. Mas essa violência não abala, relevantemente, a vida noturna da orla da Barra, ainda mais com essa iluminação que completou nove anos no último aniversário da cidade. Seu Ademir, como é conhecido pelos funcionários e clientes do bar Barravento, no qual é gerente há oito anos, afirma com convicção que a iluminação da orla espantou muito bandido das redondezas. Ademir foi garçom por muito tempo e com o passar dos anos se tornou gerente do bar, que tem 47 anos de funcionamento. Segundo ele, a mudança importante com a implantação dos postes de iluminação especial na orla teve reflexo para o bar somente no quesito da segurança, tendo em vista que o bar é tradicional e o fluxo de clientes manteve-se igual à época em que não havia luz da maneira que se tem hoje. “Além de tornar um visual mais bonito, a iluminação da orla afastou muito os ladrões. Não vou dizer que não tem mais ladrão hoje em dia, mas diminuiu bastante”, falou o jovial gerente no auge dos seus 72 anos.

O tradicional dá espaço ao moderno e despojado em uma lanchonete na frente do Barravento. Com uma fachada amarela e laranja, bancos de acrílico dentro do lugar dando um ar mais jovial e tendo como principal pedida da casa o açaí, o Crisp Juice Bar, como o nome já diz, representa a parte nova da Barra. Existente há sete meses, o bar comandado pela paulista Fernanda Dennis, recém chegada à Bahia, já foi assaltado duas vezes. Revoltada com tamanha apatia por parte dos policias – mesmo depois de ter ido duas vezes ao módulo mais perto, não teve seu problema solucionado – ela desabafa: “Não me sinto segura aqui. Essa iluminação, em minha opinião, diminui, mas não acaba com problemas de ordem criminal. Não se pode dar para iluminação uma responsabilidade que é da polícia. Nem tudo são flores nessa orla, apesar dos diversos comentários positivos que ouço das pessoas que sentam aqui”.

A equipe do SOTEROPOLITANOS esteve na 11ª Companhia Independente da Barra/Graça, uma espécie de delegacia de bairro. O Tenente Marcos, responsável por essa PM Comunitária, não nos forneceu dados concretos sobre o índice de ocorrências na Barra antes e depois da iluminação, mas afirmou que a implantação de postes na orla facilitou a ação dos policias. “Mesmo sem dados concretos tenho certeza que houve uma redução no índice de criminalidade na orla em virtude dessa iluminação”, disse o jovem Tenente de 27 anos, que há um ano e meio exerce essa função na delegacia.

Turismo
Carnaval, pontos turísticos conhecidos mundialmente, belas praias e um povo que sabe receber, fazem com que o número de turistas que visitam Salvador só faça aumentar. De acordo com o site oficial da Empresa de Turismo de Salvador, EMTURSA, Salvador é a quarta capital mais visitada do Brasil, perdendo apenas para Rio de Janeiro, Florianópolis e São Paulo. Visando atrair mais visitantes, a EMTURSA, na época em que a iluminação na orla da Barra estava em discussão, defendeu com unhas e dentes a implantação da mesma. O assessor de comunicação da EMTURSA, Rosalvo Júnior, em entrevista ao SOTEROPOLITANOS, disse que a campanha da empresa para que a iluminação deixasse o papel e se tornasse realidade foi pesada. “Em 97, quando a iluminação estava confirmada, tratamos de espalhar panfletos por toda cidade, além de divulgar em mídia nacional que a velha orla de Salvador ia ganhar cara nova”, falou entusiasmado o assessor que na época da implantação não prestava serviços a EMTURSA, mas acompanhou o processo de perto.

A primeira orla a ser iluminada foi a da Barra, e fez tanto sucesso, que outras orlas seguiram o mesmo caminho. A tendência, de acordo com uma projeção da Secretaria de Serviços Públicos, SESP, é que em cinco anos, todos os 52 km de orla marítima da cidade estejam devidamente iluminados. “Estamos fazendo nossa parte, iluminando e reformando trechos desde Amaralina até proximidades de Patamares. Com isso, temos a finalidade de aumentar o turismo noturno nas proximidades do mar. Cabe ao cidadão pagar seus impostos regularmente para que os serviços continuem em andamento”, explicou o coordenador de iluminação pública, Raimundo Silva. O cidadão usufrui de toda essa estrutura, mas paga um preço por cada adaptação de postes ou holofotes de grande potência, para cobrir os gastos da energia consumida pelos mesmos. Junto com os impostos da iluminação, a prefeitura anexou, desde a época da primeira iluminação pública de grande porte (Barra – Ondina) um outro imposto. Seria uma espécie de imposto extra, que não é distinguido na hora do pagamento. Apenas percebe-se um aumento compatível com as adaptações feitas na cidade.

O Porto da Barra com sua maré calma, a Avenida Oceânica à beira mar e o Cristo, que do alto de uma pequena montanha gramada abraça a cidade por inteira, receberam um presente de grande importância há nove atrás. Cabe a todos os cidadãos, zelar por isso, e continuar lutando para que Salvador se torne cada vez mais charmosa e atraente para os próprios baianos e os que vêm de fora ver de perto o que é que a Bahia tem.
(maio de 2007)

 

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