Estado de conservação dos pontos de ônibus da orla

Posted on 29/05/2007 por

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por Verena Campello

A orla de Salvador tem paisagens naturais encantadoras. Além dos coqueiros que a acompanham, hoje, é marcada por novos estilos de pontos de ônibus. Esses novos pontos tiveram o estilo importado da Europa durante a gestão do prefeito da época, Antônio Imbassaí. Com uma arquitetura moderna e arrojada, os novos pontos deixaram a cidade com um aspecto mais urbano e sofisticado. Porém, o estado de conservação desses pontos não é dos melhores e parece não agradar a maioria dos usuários de transporte público da cidade. As pessoas mal se lembram de como eram os pontos antes, mas acham que esse novo estilo não se encaixa muito bem no perfil da cidade, já que não protege as pessoas do Sol, da chuva e nem da violência, característica, hoje, inerente nas cidades urbanas Brasileiras, como é o caso de Salvador. Segundo a secretária da Gepro (Gerência de Projetos da Secretaria de Transportes da Prefeitura Municipal de Salvador), Meire Barbosa, os novos pontos tem como finalidade, principalmente na orla, não impedir a visão da paisagem do mar com sua estrutura de vidro.

Falar do sistema de transporte da Bahia é falar de um sistema precário, se comparado a muitas cidades Brasileiras. Um exemplo é a cidade de Londrina, em Curitiba, que possui o melhor sistema de transporte público do Brasil, o que inclui o conjunto de pontos de ônibus altamente estruturados. Os pontos se constituem em cápsulas, onde a passagem é cobrada neste, fator que contribui para a diminuição dos índices de assalto dentro dos ônibus. A pessoa paga, entra e fica esperando o seu ônibus chegar no maior conforto. A segurança é de ponta e a limpeza reforçada. Para a turista Curitibana, Priscila Teles, 29 anos, os pontos de Salvador deixam as pessoas muito mais expostas do que em Londrina. “Na minha cidade é mais fácil esperar um ônibus. E na hora de embaraçar não fica essa loucura igual aqui, porque dentro do ponto já se forma uma fila estruturada sem confusão”, conta Priscila.

A distribuição dos pontos de ônibus na orla se faz de acordo com as localizações onde existem o maior fluxo de pessoas que estão de saída e chegada. “Os pontos são colocados em locais estratégicos para o melhor acesso da população”, como explica a secretária da Gepro, Meire Barbosa. “Muitos pontos se encontram em estados precários, porque muitas vezes os próprios usuários desses os degradam, quebrando os vidros, ou riscando esses patrimônios públicos”, diz Meire.

Desigualdade Social
É impossível não enxergar a desigualdade social até em um bem público, onde a maioria dos usuários são pessoas da classe média para baixo. Pessoas que apesar de estarem ali apenas de passagem, ou à espera, necessitam de um mínimo de consideração para com os impostos que pagam. E por isso mesmo devem receber condições humanas de espera do transporte coletivo. Segundo Joseilton da Silva, cobrador da empresa Verdemar há sete anos, quanto mais para o subúrbio se viaja (pela orla), pior é o estado de conservação dos pontos. Nesses, muitas vezes só tem uma placa onde se lê “ponto de ônibus”. “Nesses lugares as pessoas se acomodam do jeito que dá na hora de esperar seu ônibus, correndo diversos perigos”, afirmou Joseilton. E ele ainda confessa que só olha para o mar quando o ônibus está vazio, o que é uma raridade.

Quanto mais distante dos bairros nobres se fica, e mais próximo dos bairros periféricos se chega, a configuração estética muda. A realidade é outra. A questão segurança é uma realidade, ou melhor, uma não realidade na maioria dos pontos da orla de Salvador. Segundo a empregada doméstica Maria José de Almeida Pitanga, analfabeta, de 50 anos, os pontos são desconfortáveis, não têm iluminação. “Se chover molha todo mundo, e quando o Sol está forte não protege ninguém”, diz Maria. Ela, que faz o trajeto de sua casa em Paripe para seu trabalho no bairro da Pituba há dez anos, conta que numa tarde de terça-feira foi abordada em um ponto da Pituba, em frente ao Clube Português, esperando o ônibus para voltar para casa. “Levaram-me tudo. Senti-me desprotegida por que além da falta de segurança, não havia nenhum módulo policial próximo para eu fazer uma queixa”, relembra Maria José.

A questão real são as questões estéticas, que mudam bastante de figura de um bairro nobre para bairros mais pobres. As reclamações parecem unânimes na boca do povo, que se queixa de diversos problemas. Os pontos são cheios, sem estrutura para tanta gente, sem conforto, com pouca limpeza, falta de iluminação e segurança. O motorista de ônibus Robson Pontes, confessa que mal observa a paisagem do mar. Ele, que já dirige coletivos pela empresa BTU há três anos, diz que ouve bastantes reclamações dos passageiros sobre a falta de segurança nos pontos. Ele, que passa por tantos pontos durante o dia, revela não reparar muito nas suas estruturas. E afirma que a única coisa de que se recorda é a super lotação de alguns pontos. “Parece que as pessoas vão transbordar”, afirmou Robson Pontes.

E não é só para as pessoas das classes mais baixas que os pontos parecem representar um verdadeiro incômodo. Segundo o surfista Lucas Garcia, que pega constantemente o ônibus Praia do Flamengo, para surfar em Jaguaribe, os pontos de ônibus da orla se encontram em péssimas condições higiênicas. “O ponto é muito sujo, objetos e alimentos são lançados nas calçadas, o que ajuda na proliferação de animais nojentos. Os acentos dos pontos são estragados e mal da para sentar. A poluição visual também é outro fator negativo, já que muitos pontos servem de mural para panfletos”.

Os pontos menores são mais limpos e conservados, embora ofereçam apenas três acentos para a espera do transporte público. Os pontos de ônibus maiores têm muita gente, muita confusão, muitos ambulantes e conseqüente falta de limpeza e estrutura. A estrutura dos pontos de ônibus ainda deixa a população bastante dividida em relação à questão da modernidade e estética melhoradas no visual da orla de Salvador. Porém quando a questão é falta de segurança, iluminação, limpeza e proteção aos usuários do sistema de transporte público, a população continua indignada e convicta de que é preciso uma mudança providencial nesses setores.
(maio de 2007)

 

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