Conforto à beira mar

Posted on 29/05/2007 por

0


por Milena Quize

“Vai querer cadeira morena?”, “Qualquer coisa é só falar comigo!”, “Faço um pacote para você”. Com apenas alguns segundos pisando na areia, já se é rodeado por várias pessoas que prometem dar conforto aos praieiros que querem curtir o Sol forte e as águas tranqüilas da praia do Porto da Barra. Vestidos com trajes de banho e protegendo-se contra o calor com bonés, óculos escuros e protetor solar, dominam a área. Num espaço onde não existem as tradicionais barracas, o que resta – sem querer ou poder diminuir o que é feito – são os serviços dos homens que alugam cadeiras e sombreiros no lugar que é considerado um dos mais lindos do mundo. Além disso, ainda vendem água mineral, refrigerante e bebidas alcoólicas. Só não dão mesmo conta da comida, que pode ser comprada de outros vendedores ambulantes. “A gente ainda não tem estrutura para oferecer tira-gosto. E por um lado é até bom, porque assim todo mundo pode ganhar o seu”, diz Renato Santana, 35 anos. O cardápio dos banhistas é cheio de opções. Vai do picolé capelinha ao camarão do famoso João, que desfila por entre milhares de pessoas, erguendo a bandeja de alumínio onde oferece seus espetinhos.

Arrumação

O que se vê é um improviso. Improviso, que se diga, organizado. Ficam quase que em fila. Cada alugador tem, em média, dois isopores grandes – onde armazenam o que vendem – que ficam debaixo de um todo ou de um enorme guarda-sol, juntamente com as cadeiras e sombreiros. Como se fixam em local público, precisam de uma licença municipal, que lhes custa R$150 mensais. “Mesmo custando caro vale a pena. Se mesmo com fiscalização, sempre tem alguém que não paga aparecendo, imagine se fosse livre? Ia virar bagunça”, afirma Júlio César Moreira, 23 anos. Quando perguntado sobre o dinheiro que consegue com o trabalho, responde: “Na alta estação, chego a tirar R$400,00 por mês. Mas no inverno, tiro no máximo R$300”.

A concorrência é forte, contudo pacífica. Não se nota cara feia ou competição entre eles. “Tudo aqui é na base da união. Quem vê o cliente primeiro chega junto. O outro nem vai atrás. O que um não tem, o outro empresta”, conta Júlio, que não pára um só minuto, alternado-se entre seus clientes e os mergulhos no mar que servem para lhe esfriarem a cabeça e o corpo que, mesmo depois de três anos, ainda sofrem com as altas temperaturas.

Cobram mais caro dos turistas estrangeiros, facilmente identificados pela aparência física e pelo jeitão diferente. Logo se vê que são peixes de um outro aquário. “Ah… Eles têm mais dinheiro que o pessoal daqui!”, admite Fernando Sousa, 29 anos. Mesmo pagando mais, os peixinhos do Norte acabam recebendo mais mordomias. Alguns tiram até um sono leve, envoltos pelas brisas que sopram em direção ao mar.

Os clandestinos são poucos e, por medo de uma possível fiscalização não ficam na praia sempre. “A gente vem uma vez ou outra, quando dá”. Sendo verdade ou não, foi tudo o que se permitiram dizer dois deles, que estavam conversando no momento em que foram abordados. Não quiseram dar seus nomes.

Frustração
Segunda-feira, dia de correr atrás de outros dois alugadores de cadeiras e guarda-sol, já antes vistos em momentos onde a única pretensão era o lazer. O rumo a Jaguaribe foi lançado. Chegando lá, nenhum deles sequer foi visto. Havia poucas pessoas aproveitando o Sol fraco que fazia naquele início de tarde. Depois de andar um bom tempo e voltar ao ponto de partida, já certa da minha inevitável frustração, resolvi parar o estudante Leandro Pereira, 20 anos, que saía do mar com sua prancha de surf debaixo do braço. “Não costumo vê-los por aqui nas segundas-feiras. Acho que perdeu mesmo a viagem”. Sem a possibilidade de voltar num outro momento, a única saída foi o conformismo.

Clientela Satisfeita
Atendidos a qualquer chamada, tendo cortesmente seus pés refrescados contra a areia quente de hora em hora, os clientes não têm do que reclamar. Sem falar que, nesse caso, a negociação é algo mais do que comum entre quem paga e quem é pago. Afinal, mesmo sendo “na base da união”, a concorrência não deixa de se fazer presente. “Consigo, no mínimo R$0,50 de desconto em tudo que compro e alugo”, conta a estudante Dijara Conceição, 19 anos. “Tudo bem que aqui não tem as duas alternativas, mas prefiro mil vezes vim para cá a ir para as praias com barracas”, acrescenta a também estudante Clara Martins, 18 anos. Os turistas também aprovam o serviço. Alexandre Nascimento, 25 anos, se mostra bastante satisfeito: “O atendimento é muito bom”, diz o mineiro que não abre mão de passar temporadas em Salvador todos os anos.
(maio de 2007)

 

Anúncios
Posted in: CIDADE