Aeroclube – dívidas, decadência e revitalização

Posted on 29/05/2007 por

0


por Renata Santana

Durante um passeio à tarde pelo shopping Aeroclube Plaza Show, localizado em frente à praia da Boca do Rio, encontram-se diversas lojas vazias, banheiros e estacionamentos interditados, lojas funcionando sem letreiro, grama alta na parte interna do shopping. Nos restaurantes que ficam em frente à praia, funcionários jogando baralho, esperando o tempo passar, por falta de clientes. Lojas e demais espaços vazios. Esses são os sinais visíveis da decadência, que já dura dois anos, de um empreendimento que surgiu com a intenção de ser o principal local de lazer e entretenimento da cidade de Salvador. “O shopping já foi ponto de encontro de amigos e muitos jovens. E nos finais de semana eu quase não encontrava locais para estacionar. Tinha também música ao vivo e, aos domingos, atividades infantis. Hoje o shopping está vazio. Dá até medo ficar passeando por aqui, já ouvi histórias de estupros e assaltos”, relata a dentista Viviane Damasceno, que parou no Aeroclube para tirar dinheiro no caixa eletrônico.

A freqüente rotatividade das lojas, a falta de manutenção das estruturas internas, a má qualidade das produções culturais, notícias de seqüestros relâmpagos, estupro e assaltos, fizeram com que o shopping fosse perdendo seu público e que famílias deixassem de freqüentar o local, dando lugar a garotas de programa, atraídas por turistas. Lojistas falam que o movimento só se intensifica durante os meses de janeiro e fevereiro. Durante os outros meses o movimento é maior nos finais de semana e à noite.

“O Aeroclube foi inaugurado em 21 de outubro de 1999 e contava com 140 lojas e cerca de dois mil funcionários. O projeto inicial do Aeroclube era fazer o maior centro de lazer da América Latina. Hoje, cerca de 70 lojas estão abertas e tem cerca de 850 funcionários. Durante os dois últimos anos o shopping foi tomado por essa crise, onde 143 diferentes empreendimentos apareceram e depois fecharam suas portas”, relata Rogério Horlle, lojista e presidente da Associação de Lojistas do Aeroclube Plaza Show (Alashow).

Durante as semanas que antecedem o Carnaval, o Aeroclube é o ponto principal de compra e entrega de abadás, causando uma superlotação nesses dias. “Durante o carnaval de 2007, o estacionamento do shopping foi tomado por diversos cambistas e vendedores ambulantes, causando um caos, e fazendo com que houvesse diversos assaltos. O shopping foi interditado para os clientes, foi fechado por alguns momentos por causa da superlotação e pela situação estar fora de controle”, relata Heder Mendonça, proprietário do Rock in Rio, que teve que cancelar um show evangélico durante o período.

A falta de movimento nas lojas, além da falência, faz com que muitas não paguem o aluguel. Os lojistas também reclamam da ausência de climatização das suas lojas e do aluguel abusivo. “O shopping cobra R$ 50 por m², enquanto outros shoppings como o Itaigara, cobram R$ 23, e o Iguatemi R$35, sendo também a principal causa de inadimplência dos 90% dos lojistas”, como afirma Celso Oliveira, advogado da Alashow.

Muitas matrizes estão exigindo que suas franquias filiadas ao Aeroclube funcionem sem suas marcas e letreiros nas lojas, como o cinema UCI. “A dona na loja Imaginarium foi obrigada pela administradora da franquia a mudar o nome da loja, pois não tinha mais interesse em ter a sua marca vinculada a um shopping decadente”, afirma Horlle.

Dívidas
Para diminuir os prejuízos da falta de movimento, a administradora do shopping, a Consórcio Parques Urbanos, pediu revisão do uso do solo de “pólo de entretenimento”, para “pólo comercial”, para poder colocar lojas âncoras, afim de segurar o público, com o objetivo de revitalizar o shopping. O pedido foi aprovado pela prefeitura em junho de 2006. E os projetos para a revitalização só foram apresentados à prefeitura seis meses depois.

Quanto mais demora, fica mais difícil para os lojistas suportar as dívidas. Eles acham que essa demora da administradora para começar as obras de revitalização é intencional, para que as lojas que ainda restam, fiquem sufocadas em dívidas e acabem fechando. Assim, a administradora não precisaria pagar indenizações aos lojistas.

O ministério público moveu ações contra o shopping, pelo não cumprimento da instalação do parque previsto no projeto original, a não adequação das atividades do propósito original, ou seja, um shopping de turismo, lazer, entretenimento e cultura e a dívida do preço público com a prefeitura (aluguel cobrado pelo uso da área pública), que estava em cerca de R$ 15 milhões. Em contrapartida, a Consórcio Parques Urbanos acionou juridicamente a prefeitura pelas paralisações das obras, que retardaram a construção e causaram prejuízos financeiros ao empreendimento.

Revitalização
No dia 29 de janeiro deste ano, a prefeitura fechou acordo com a Aliansce (empresa contratada pela Consórcio Parques Urbanos para administrar o shopping), para zerar as dívidas de ambas as partes. E deu a autorização para o início das obras de revitalização para março, que devem terminar em dezembro de 2007.

Os lojistas agora querem aproveitar o embalo para pedir que suas dívidas também sejam perdoadas, mas a Aliansce está pressionando-os para que entreguem suas lojas. “Todos irão ter a sua chance para conversar sobre suas dívidas”, afirma Everton Visco, diretor da Aliansce.

O projeto de revitalização do shopping primeiramente irá mudar o mix das lojas, que eram de cultura e lazer, e passarão a ser de varejo e serviço. Pretende-se também instalar lojas âncoras e de grife, e ampliar a área do shopping. Irão ampliar o Parque Atlântico, que terá pista de cooper, espelho d’água e anfiteatro. E pretende-se ainda construir um hotel, na área que um dia foi o kart.

Enquanto as reformas não começam, os lojistas estão se reunindo para procurar uma solução para seus prejuízos, pois sabem que, assim como não teve prazo para começar a revitalização, não terá para terminá-la, e muitos já pensam em deixar o shopping antes do início das obras.
(maio de 2007)

 

Anúncios
Posted in: ECONOMIA