A luta por um lar

Posted on 29/05/2007 por

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Movimento dos Sem Teto de Salvador e seu acampamento na cidade baixa
por Thiago Requião

Quem passa pelo acampamento do Movimento dos Sem Teto de Salvador (MSTS), no bairro do Bonfim, vê uma fábrica abandonada e em ruínas, ocupada por 122 famílias filiadas ao movimento, morando juntas e com espaços divididos por tábuas e lonas. À primeira vista, esse cenário pode parecer um local desorganizado, com sujeira espalhada por todos os cantos, que não tem metas e nem projetos que visem a luta pela melhoria no modo de vida. No entanto, não é essa a verdadeira face do movimento que ocupa, há aproximadamente quatro anos, uma antiga fabrica têxtil localizada na cidade-baixa, a Toster. Logo que cheguei no portão do prédio fui atendido por um senhor. Apresentei-me como estudante que procurava algum representante que pudesse dar algumas informações sobre o movimento. Antônio Carlos, 65, o senhor que me recebeu, é um dos coordenadores do movimento e foi logo puxando uma cadeira para mim. Logo no início da conversa, ele conta que as famílias estão lá porque não tinham para onde ir e queriam pressionar os políticos para solucionar o problema da moradia. Elas esperavam a construção de conjuntos habitacionais que já haviam sido prometidos pelo governo. Durante a conversa, fomos interrompidos por um morador pedindo a Antônio que ele mandasse arrumar a bagunça que tinham feito no primeiro andar do prédio. Uma pilha de papelão havia se formado num dos corredores principais. Foi quando ele me disse que a maioria dos moradores não tem emprego fixo e sobrevive de “bicos” ou da coleta de lata e papelão para reciclagem. Apesar do problema com a bagunça, Antônio me fala que a convivência lá é de “coleguismo. Um ajuda o outro”.

No MSTS, ao contrário do que se pode pensar, existem metas que eles desejam alcançar. A de lutar pela casa própria para todas as famílias, a mudança do modelo social (sempre em busca de uma maior igualdade de oportunidades para todas as pessoas), uma educação de qualidade, o direito ao trabalho e à saúde para todos, são algumas delas. Dentro do movimento existe uma grande organização interna, uma hierarquia com líderes e coordenadores, que sempre buscam manter a unidade, organização e limpeza do local.

O trabalho desenvolvido pelo movimento vai além da casa própria. Eles buscam uma conscientização e educação das famílias filiadas. Não basta fornecer a casa para a família, tem que dar a oportunidade para ela se estruturar. Jhones Bastos, líder do acampamento na Toster afirma: “Quem está no MSTS está para sempre, porque depois da moradia é intensificado o trabalho em comunidade, com ênfase nos debates sobre valores, ética e modos de produção”.

Caminhos da luta
O MSTS teve sua origem, oficialmente, em 2003. Nesses quatro anos de atuação já fez diversas ocupações na tentativa de pressionar o governo a tomar medidas para combater o déficit habitacional na capital baiana. Apesar do movimento ser local, ele tem ligações com diversos grupos que também lutam pelo direito à moradia em outras cidades do país, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) de São Paulo. O movimento teve origem na Estrada Velha do Aeroporto. Muitas pessoas, que hoje estão na antiga fábrica da Toster, vieram de lá. As outras pessoas do acampamento são moradores da própria cidade-baixa, que, desempregados e sem um local para viver, viram no movimento uma boa oportunidade de luta pela moradia.

Existe um projeto da prefeitura que pretende solucionar os problemas das pessoas que vivem na antiga Toster. Com o projeto, o governo pretende transformar o prédio – que hoje se encontra em estado de ruína e não tem nenhuma condição de abrigar as famílias com segurança e dignidade – em apartamentos para moradia. Os que puderem pagar o financiamento da Caixa Econômica ficarão nos apartamentos do local. Já as que não puderem, serão levadas para conjuntos habitacionais que estão sendo construídos para alojar tanto as famílias que estão no Bonfim, quanto as do antigo Clube Português. Os conjuntos habitacionais do governo estão sendo construídos nos bairros de Pirajá, Cabrito e Valéria.

Relação com o governo
A prefeitura de Salvador tem criado bom canal de negociações com o movimento, não tendo nenhum grande impasse na comunicação entre o MSTS e a prefeitura, como afirma Antônio Carlos: “O problema é só a demora e falta de um prazo para a entrega das casas, para que possamos ficar na expectativa da mudança”. Os moradores gostariam de já ter uma data definida de quando receberão as casas definitivas, para começar uma organização para a mudança.

Uma grande queixa dos moradores é a falta de um apoio contínuo da Secretaria de Saúde e do Juizado de Menores. “Falta muito o apoio da Secretaria de Saúde, para fazer campanhas e cuidar das pessoas, e do Juizado de Menores, para aconselhar as mães de como não deixar seus filhos entrarem no crime e nas drogas. Disso nós sentimos muita falta”, conta Atônio Carlos. O coordenador ainda fala sobre como esse apoio é fundamental em um local com pouca infra-estrutura e que pode facilitar a entrada dos jovens na criminalidade por falta de um apoio no que diz respeito à educação e profissionalização, já que uma grande parte das pessoas são desempregadas e sobrevivem de biscates.

O MSTS é um exemplo bem sucedido de como a sociedade deve se organizar para pressionar o governo a resolver seus problemas. É inegável a comparação do Movimento dos Sem Teto de Salvador (MSTS) com o Movimento dos Sem Terra (MST), pois ambos buscam não só a propriedade em si, mas um apoio para produzir, estruturar as vidas de seus membros e deixar de depender do governo. Um outro traço marcante nos dois movimentos é a tentativa de se mudar o atual modelo social, buscando uma maior igualdade de oportunidades.
(maio de 2007)

 

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